Blue Moon City
»
Forums »
Reviews
Blue Moon City:Review In Portuguese (Critica Em Português)
Originalmente publicado em
www.rededejogos.comA capacidade do Dr. Knizia de inventar jogos é estupenda, apesar de às vezes a sua capacidade de inventar mecânicas originais já não seja assim tão estupenda. Apesar disso, as probabilidades de ele criar uma verdadeira jóia são maiores do que as dele criar um lixo autêntico. É por isso que me interessei no Blue Moon City, parecia ter todas as probabilidades de ser uma verdadeira jóia. Mas será mesmo uma jóia?
Blue Moon City é um jogo do estilo Euro designed por Reiner Knizia e publicado pela Fantasy Flight Games que tem construido a sua reputação mais à base de Amerigames. Este jogo permite de 2 a 4 jogadores. O objectivo do jogo é contribuir para a reconstrução de vários edifícios duma cidade devastada. A contribuição é feita através de cartas com cores especificas e cada edifício tem uma cor especifica que só poderá ser contribuido com cartas da mesma cor. O jogador que contribuiu com mais, e os restantes jogadores que contribuirão também, irão acabar por ganhar recompensas em formas de cristais, que é a moeda do jogo, escamas de dragão e cartas. No fim, o jogador que contribuir um número especifico de cubos que muda conforme o número de jogadores para o obelisco ganha.
Passemos à análise.
Apresentação. Comecemos pelo bom. As figuras dos dragões são mesmo bonitas, grandes e de borracha, acho eu. Os tokens de jogo é feito com cartão durável e grosso, o que aumenta em muito a qualidade dos componentes. E prontos, passemos ao menos bom. As cartas têm uma arte espectacular, isto é, para quem nunca jogou Blue Moon e as suas expansões. Para quem jogou, a arte é exactamente igual a desse jogo, mas prontos, a arte gráfica das cartas continua a ser bastante superior à maioria das cartas dos restantes jogos. A arte nos tiles dos edifícios é excelente, mas beneficiaria de uma melhor distinção entre um edifício a ser construido e um já concluido, já que por vezes uma pessoa não consegue distinguir rapidamente se o edifício está a ser construido ou já foi construido. As regras são simples, curtas e fáceis de aprender e entender e mais fáceis de explicar. No entanto o manual é inexplicavelmente enorme, do tamanho da caixa, o que torna-o incomodativo quando se quer folhea-lo a meio duma sessão para procurar uma regra. Apesar do seu tamanho físico, está bem estruturado e organizado. E agora passemos ao incrivelmente mau. Embora eu compreenda as razões de usarem o mesmo estilo de tamanho e formato de caixa, o insert da caixa é completamente não funcional. Sim, quase todos os componentes cabem no insert, todos menos o mais importante, o obelisco, que não tem nenhum sitio onde o meter. Isto acaba por ser um pouco mau pois comprar um jogo em que não se consegue colocar todos os componentes numa ordem organizada no seu insert é algo que não se devia ver. Como tal, em termos de apresentação, este jogo acaba por deixar mais a desejar do que deveria.
Quanto ao tema, bem, isto é um euro do senhor Knizia. Só isso diz tudo, ou quase tudo. Surpreendentemente este jogo tem um pouco de tema. Um jogador acaba por envolver-se no jogo e pensar que está realmente a reconstruir uma cidade dum mundo fantástico. Para um jogo de Knizia, o tema está bem elaborado e melhor executado. Claro, continua a ser um Knizia portanto apesar do que eu disse aqui continua a ter tanto tema como um euro normal, talvez um bocadinho mais. Este jogo foca-se mais nas mecânicas do que no tema, mas é um esforço admirável de Knizia e acho que se todos os jogos de Knizia fossem mais focados no tema como este talvez ele tivesse uma melhor reputação perante os jogadores que acham seus jogos incrivelmente secos de tema. Uma boa tentativa e um euro que acaba por ter um tema mais forte que o normal.
O factor sorte neste jogo é algum, mas no bom sentido. Para um jogo de Knizia este jogo tem um factor de sorte bem considerável até. Para começar o tabuleiro é modular, ou seja, os tiles de edifícios são colocados de maneira aleatória, o que torna todos os jogos diferentes dos anteriores e, como tal, aumenta um pouco a longevidade do jogo. O outro factor de sorte é a distribuição das cartas. Sendo as cartas o coração do jogo, pois sem elas não se pode fazer nada, a distribuição das cartas é também arbitrária. Isto torna o jogo mais imprevisível, muito mais que um Knizia normal, mas ao mesmo tempo torna-o mais interessante. Estes dois factores de sorte, os únicos até, são significativos mas acabam por tornar a experiência de jogo muito mais agradável.
Quanto a estratégia e táctica, temos aqui um jogo maioritariamente táctico, em que planos de curto prazo tornam-se muito mais importantes que os de longo prazo. Não quer dizer com isto que não haja estratégia, mas a maior parte da estratégia deste jogo é subtil, embora com ramificações que se estendem a todos os jogadores. Mas este é um jogo em que se deve pensar mais no agora e não tanto no futuro distante. Outro factor interessante é a natureza das cartas. As cartas podem servir dois propósitos, ou podem ser usadas para reconstruir edifícios ou então descartadas de maneira a usar o poder especial associado à carta. Isto torna este jogo bastante interessante de facto. A natureza dupla das cartas é um elemento um pouco original que não se vê muito ainda, e neste jogo esse elemento é usado à eficácia máxima. Assim os jogadores estarão divididos entre usar uma carta para construir um edifício ou então usá-la pelo poder, e isto provoca decisões bem pesadas, apesar de serem decididas rapidamente, durante o jogo. Isto contribui ainda mais para o aspecto táctico do jogo, cimentando ainda mais o poderio táctico sobre o estratégico. É uma mecânica bem original e uma delicia para os jogadores tácticos. Portanto, se gostam de euros que valorizam mais a táctica sobre a estratégia, este é o jogo ideal para vocês.
A interacção entre jogadores acaba por ser média. Embora não seja directa, os jogadores muitas vezes acabarão por partilhar as contribuições de vários edifícios e o jogo pode-se tornar num jogo de cooperação involuntária, na medida em que neste jogo conflito entre jogadores é muito mais prejudicial do que conviverem uns com os outros. O segredo é saber aproveitar as melhores ocasiões quando elas surgem, de facto este jogo é o perfeito exemplo de 'aproveitar o momento'. Seja como for a interacção entre jogadores existe, embora indirecta, e provoca um ambiente bem bom em torno do jogo.
Quanto ao peso do jogo, é difícil de determinar. À primeira vista o jogo parece ser um simples light-middleweight, fácil de jogar e sem nada de mais. O facto é que este é um jogo muito mais profundo do que parece ser à primeira vista e, mais importante, força os jogadores a decisões criticas muitas vezes durante uma sessão. Apesar de ser um jogo muito fácil, simples e rápido, tem muito mais que se lhe diga, e adicionando isso às constantes decisões criticas que terão que ser constantemente feitas, eu diria que este jogo é um verdadeiro middleweight, mesmo no meio da escala. Pode parecer um jogo leve, mas poderão ser enganados. Este jogo tem muito mais que se lhe diga e, como tal, é uma surpresa bem agradável para quem goste de joguinhos mais pesados. Este jogo é, para mim, um lobo com peles de cordeiro. É algo diferente do que parece ser.
Quanto a ser um gamer's game ou um filler, não é nem um nem outro. Está exactamente no meio, embora para alguns a tendência será de se aproximar mais do filler do que do gamer's game. Este é basicamente um euro normal, um trabalho regular de Knizia que não tenta tornar o jogo num Stephenson's Rocket ou Euphrat&Tigris. É um simples euro em termos de escala.
A longevidade deste jogo é boa. Para começar o tabuleiro modular ajuda a manter uma boa longevidade, apesar de haver muitos que consideram que um tabuleiro modular nada tem a haver com longevidade. Depois a natureza involuntária de cooperação que existe neste jogo torna o jogo muito menos agressivo que a norma, o que poderá apelar para quem queira um jogo um pouco mais pacifico que o habitual. Mesmo assim este jogo tem um certo charme, um certo apelo que irá aliciar os jogadores a jogarem-no regularmente, entre jogos mais pesados. É um bom jogo para passar o tempo, é amigável mas bastante competitivo e acaba por apelar muito mais do que se podia esperar. Um jogo com um bom nível de longevidade, embora nada de muito além.
O dinamismo deste jogo é fascinante. É incrível ver o tabuleiro evoluir com o jogo e os jogadores depressa se adaptarem ao estado do tabuleiro e, principalmente, às jogadas dos outros jogadores. De facto eu há muito tempo não via um jogo em que se pudesse observar o seu dinamismo de forma tão clara como neste jogo. A maneira como os jogadores mudam de tácticas para se adaptarem às condições presentes no jogo é bem visível e este jogo torna-se um exemplo para quem goste de observar a dinâmica dum boardgame em todos os aspectos. Sem dúvida há exemplos muito melhores, começando com o Civilization que, para mim, é o supra sumo de dinamismo num jogo, passando pelo El Grande, por exemplo. Mas é engraçado conseguir sentir a dinâmica dum jogo tão fortemente como neste jogo. Este jogo força os jogadores a serem dinâmicos e nunca estáticos, pois se cristalizarem os seus planos então nunca conseguirão sequer aproximar-se duma posição que os possa por na corrida para a vitória.
Introdução a novatos. Este jogo é um verdadeiro gateway game. Mais, este jogo é como todos os gateway games deveriam ser feitos. Porquê? As regras são curtas, simples e fáceis de explicar, logo um novato fica a perceber o jogo num instante. A pior parte será um novato entender a natureza dupla das cartas, mas fora isso está tudo bem. É um jogo com um tema que apela, e com mecânicas boas. É um jogo que um novato começa a jogar e interessa-se num instante e fica entusiasmado. Mas isto não é a razão pela qual eu digo que este jogo é o gateway game perfeito. A razão é porque, apesar de ser um gateway game, é um jogo incrivelmente profundo, que dará a um novato um leque enorme de possibilidades mas nunca sem intimidar o jogador. Oferece tantas possibilidades diferente a um jogador novato que ele irá ficar bem impressionado ao mesmo tempo que ele nuca se sentirá atemorizado por ter tantas possibilidades. De facto, ele irá até agradecer de certeza. Para mim, o Blue Moon City é um jogo ideal para introduzir novatos ao estilo euro, talvez um dos melhores exemplos para tal. Usem este jogo com novatos e de certeza que muitos se converterão aos boardgames.
Analysis paralysis costuma ser um problema em certos jogos do Knizia, mas não tenho tido problemas com este. Apesar da natureza das cartas os jogadores não costumam demorar muito tempo a decidir. É, em suma, um jogo rápido em matéria de decidir a próxima jogada. Portanto, como tal, é um bom jogo para quem odeie AP.
Quanto ao downtime, é quase inexistente. As jogadas acontecem a um ritmo bem rápido e um jogador nunca tem que esperar mais que um minuto até à sua próxima jogada. As jogadas processam-se a um ritmo bom e é pouco provável que um jogo degenere ao ponto do downtime se tornar um problema. Na grande maioria das sessões é bem possível que os jogadores nem sequer notem no downtime.
O visual do jogo é excelente. Para um observador casual que passe pela mesa, ele ficará com certeza fascinado pelo jogo pouco usual e pela estética do jogo. É um bom jogo, não para chamar a atenção de todos, mas para fascinar aqueles que passem e notem no jogo.
As mecânicas do jogo são tipicamente Knizia, ou seja, funcionais, apertadas, a funcionarem que nem uma máquina industrial, e no entanto, secas. Mesmo assim ele usa algumas mecânicas originais, o que dá um novo ar a este jogo. Mas em termos de execução as mecânicas funcionam impecavelmente, não obstruindo o diversão do jogo. Enfim, um bom exemplo de mecânicas de um jogo euro que tentam ser um pouco mais originais que a norma.
Quanto ao tempo de jogo, uma sessão não irá demorar mais que uma hora. A média deverá rondar os 45 minutos. Logo é um jgo relativamente rápido.
E prontos.
Blue Moon City foi um jogo que sempre me chamou a atenção, portanto foi com naturalidade que o adquiri. Não sabia bem o que esperar do jogo mas as primeira sessões dissiparam qualquer dúvida. Estava perante um excelente trabalho do Knizia, um bom jogo que fazia os jogadores pensarem bem e divertirem-se ao mesmo tempo que adoptam uma postura de cooperação competitiva.
Eu gostei bastante deste jogo, muito mais do que estava à espera mesmo. Foi, literalmente, uma surpresa agradável que não esperava.
É um jogo agradável de se jogar, que não chateia nem cansa muito. É profundo quanto baste e variado o suficiente para não nos encher de tédio sempre que pensamos no jogo. Apesar de tudo é um bom boardgame que acho que merece mais atenção, e merece absolutamente estar na colecção de mais jogadores. Claro, se não gostam de Knizias não vai ser este jogo que vos vai mudar de opinião.
Um bom jogo, divertido, que nos faz pensar sobre ele depois de jogarmos. Como tal, recomendo-o a todos os eurogamers que queiram experimentar algo um pouco diferente e não se importem de ter mais um Knizia na colecção.
Recomendado.
16 de 20.